O sol estava alto no céu. Havia um número grande de pessoas à praia, e o mar estava calmo, como há muito tempo eu não via. Sentia um gosto estranho na boca, talvez devido à maresia. É, esta mesma maresia que estraga os carros. Percebi que algumas pessoas estavam com o rádio ligado e que o volume estava alto. Embora a maldita mulher estivesse gritando com a criança ranheta à esquerda e, aquele rádio, à direita, estivesse alto demais para meu gosto, ainda consegui desfrutar do prazer de ouvir o barulho do mar e sentir a vibração da alegria do pescador amador ao tirar seu troféu prateado da água. A lentidão das águas era quase hipnótica, quase. Parece que as pessoas não aproveitam esta praia como deveriam.

Estava claro para mim que eu deveria sair de onde estava. Às vezes eu queria que as pessoas que estavam ao meu redor simplesmente explodissem, fossem para o espaço e jamais voltassem à Terra. Calmamente ergui meu eu corpulento, depositado à cadeira, próxima ao carro. De forma suave a fechei. Olhei para o mar mais uma vez. Tinha uma decisão a tomar. Devo avançar à beirada e arriscar ser atropelado por alguma criança indócil, ou retornar à casa materna? Um frio percorreu minha mente e gelou-me o corpo. O gosto em minha boca estava ficando salgado demais. A decisão era óbvia: sentar-me à beirada da praia e me arriscar com as crianças. Então, guiado pela força espiritual de sempre, bati a cadeira com as mãos, guardei-a no carro e me dirigi à porta, abrindo-a em seguida, e sentando no carro. Virei a chave, o motor ligou. .

Por um instante olhei para o retrovisor. Aquilo que eu via não era o mar. Quisera eu que fosse. Nuvens negras estavam avançando a terra. Àquela altura, se meus cálculos estivessem corretos, alguma coisa ruim estava se armando. Voltei minha atenção à frente do veículo. O vento estava assoviando. Parti em direção à estátua de nossa Mãe Iemanjá, ponto turístico e local de saída.

Próximo à saída, para o desespero das outras pessoas, como que por obra da Providência, senti o vento erguendo-se e vi os apetrechos de praia de todos seguindo o vento, em direção ao mar. Pobres pessoas. O mar é impiedoso à sua maneira. Distrai a preza e depois ataca. O vento foi seu disfarce. Seu golpe, bem, a onda, que arrastou pessoas, carros, crianças, vendedores de milho, dinheiro, som, brigas, peixes. A onda foi até a barra de areia que limita o avanço dos veículos. Disseram-me, à tarde, que mortos não havia. Apenas feridos e prejuízos, se é que você me entende.

Como é mesmo a música?... Hoje é dia de Nossa Senhora, de nossa Mãe Iemanjá! Calunga ê! Calunga á!

- Igor da Silva Alves -

Opções de Envio:
»Indique este Site!«

Yasmin ~Sonhos e Carinhos