"da vez primeira que me assassinaram
perdi um jeito de sorrir que eu tinha..."
Mario Quintana.


Numa tarde qualquer visito a casa
dos mortos, e abre-se o peito
em alas de ciprestes.
O canto é fundo, a vida esquálida.
Há um Cristo dentro de mim.
Tantas almas perdidas em cruzes...
Viver é o fio de linha equilibrando
a vida e a morte.

Amo os meus mortos, e o amor é tudo.
Sibila o cicio do vento de outono, e
a Voz do Mundo sussurra ao ouvido:
- Tudo é renovação no carisma
de hóstias e sangue!
O vinho é a ferida consagração.
Poesia é o choro, na voz amada:
facho de luz fundeado nas trevas.

Somente a poesia resiste às ausências.
O sol começa a tropeçar no crepúsculo...
A boca soletra o rito das perdas e danos.

- Joaquim Moncks -

Do livro
"O Ovo de Colombo",
1999: 2003


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Joaquim Moncks


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