Cordas retesadas de meu coração menino,
a infância é um carro-de-boi
rangendo nos grotões agrestes.
Férias de julho,
entre o Monte Bonito e o Gama.
Dias antes do Getúlio
"sair da vida pra entrar na História".
E o cenário era Pelotas, tios e avós.
Dona Amélia Silveira, matriarca,
era uma fada dark,
mística em seu longo vestido negro.
Viuvez plena de saudades, filhos e netos.

Meus medos eram tantos
que ficaram naqueles distantes ermos.
Alguns tinham nomes: o cemitério, o açude fundo
e as abelhas nas frinchas do galpão.
Ainda zunem em meus ouvidos o mel
e as águas passadas.

A infância é o pilão picando o milho,
o bolo cheiroso e as letrinhas na sopa
de Ana Silveira, professora de família.
Jovelino e Hilário derrubavam pedras
com clavas e dinamite.
Ajudavam a encher fartos celeiros,
veias por onde o sangue fluía para a cidade
em seus caminhões Ford.

Tudo era bonito neste quase desmemoriado tempo.
Nele enterrei os totens da esperança futura,
entre malmequeres, patas de cavalos,
o jogo de osso e o medo do escuro.

- Joaquim Moncks -

Do livro "O OVO DE COLOMBO",
1999: 2003



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Joaquim Moncks

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