Clandestinos Eles não possuem documentos. É difícil identificá-los. São passageiros, quase invisíveis, que embarcam no comboio das nossas emoções e ali se instalam por um período de tempo, por um transcurso de viagem. Sentimentos clandestinos que, sem muita explicação, vão ocupando compartimentos vazios dentro do peito da gente. Sentimentos indesejáveis e, às vezes, inconvenientes. Passageiros disfarçados, esgueirando-se pelas nossas veias e correndo misturados ao nosso sangue, atravessam o nosso surpreso coração como trovões que rasgam os céus em meio a tempestades. Se procurarmos denominá-los, catalogá-los, decifrá-los, esbarramos no silêncio hermético das coisas secretas.É impossível definir sentimentos clandestinos que não pagam passagem e se acham no direito de viajar pela nossa alma. São clandestinos e ponto. Embarcam e desembarcam silentes como a névoa do amanhecer, como a brisa da tarde. Passam por nós como paisagem há muito esquecida e que, de repente, deslumbra nossos sentidos, encanta nossos olhos e acaricia nossa pele. Eles provocam um estremecimento em nossos mais sólidos alicerces e nos expõem ao imprevisto de sua companhia. Clandestinos, sem referencial maior do que o leve rumor que causam ao chegar e ao partir.Desaparecem sem nada explicar, deixam uma suave lembrança de alguma sensação de aventura. Clandestinos aventureiros que passeiam pelo nosso mundo interior sem passaporte válido, sem visto de entrada ou de saída. Desconhecemos se são bonitos ou feios, maiores ou menores. São apenas clandestinos. Usam disfarces e se camuflam com máscaras diversas e multiformes. Desrespeitam regras e desobedecem a horários estabelecidos. Percebemos sua presença envolvente quando já é tarde demais para expulsá-los. Em todos os momentos em que sentimos raiva, solidão, remorso ou paixão, somos vítimas de um sentimento clandestino. E, inegavelmente, quando vivemos emoções intensas como as de um grande amor, que era de vidro e se quebrou, estivemos à mercê de um sentimento clandestino, cuja identidade era falsa. Na clandestinidade, são viajantes, também, o ódio, o ressentimento, a cobiça, o medo, a avareza, a inveja e todos os seus derivados e decorrentes. Sentimentos que se instalam no mais oculto do nosso íntimo e que, muitas vezes, aparecem e se deixam perceber em rasgos momentâneos e involuntários. Os sentimentos que passam são clandestinos. Só permanecem os que têm lugar marcado e prescindem de esconder a face, de viajarem incógnitos. Carimbam o cartão de embarque em sua chegada. Têm nome e número de identificação. São insubstituíveis. A saudade, o amor, a amizade são alguns deles. Entretanto, os descartáveis, vez ou outra, se infiltram na viagem da nossa vida, atrapalhando e ludibriando o fiscal do nosso coração. Passageiros clandestinos, como as lágrimas que brotam dos olhos em horas impróprias, surgidos de um longínquo lugar, gerados por entre as frestas da alma que transborda de alguma emoção disfarçada e inexplicável. ~ Maria Alice Estrella ~ Visite o site da autora Marialicestrella »Recomenda« Yasmin ~Sonhos e Carinhos |