Quando estiveres te sentindo só, lembra das vezes em que tiveste companhia...

Quando a tristeza do entardecer se fizer presente, pensa nas alegrias de alguma manhã...

Nos momentos em que te agredirem com palavras ou gestos, recorda das carícias que já te fizeram...

Quando o cotidiano disser "não" aos teus planos, aciona a tecla da memória para trazer à tona todos os "sim" que antes aconteceram...

Quando tudo parecer desmoronar, lembra do que construíste...

As moedas têm dois lados e a noite vira dia, independente da nossa vontade.

Sem fazer alusão ao "jogo do contente", da minha época de menina, fui adquirindo, com o passar dos anos, o hábito de ver as duas faces de uma situação sob o prisma do otimismo.

Nada é tão difícil que não possa ser resolvido e se, por acaso, a solução foge ao meu alcance, lavo as mãos, o rosto, a alma e deixo para a habilidade de quem quer que seja, a descoberta do "x" do problema. Na maior parte das vezes, quem assume esse encargo é o senhor Deus.

Outra coisa, que ajuda bastante a levar o dia-a-dia de vento em popa, é sorrir. Sorrir apesar, ainda, bastante e além.

Muitas portas fechadas se abrem, muitos sons estrangulados na garganta se soltam. Milagres acontecem com um mero sorriso. E pensar que existe um bando de carrancudos, andando por aí...

Conservar a mente em estado de alerta é fundamental. E é indispensável, também, uma dose reforçada de sonhos. Mas o melhor de tudo é imitar a dona Picucha (personagem de O tempo e o vento, do Érico Veríssimo), cuja atitude era a de manter ocupadas as mãos que, como ela mesma dizia, "não sabiam ficar sossegadas".

E hoje, aqui, no meu recanto predileto, onde meus pensamentos ganham forma e se derramam em palavras, nas crônicas dos domingos, estou meditando todas as coisas boas que já me ocorreram. Coloco em destaque as alegrias e deixo para um segundo plano as más lembranças. Vezes sem fim chorei por desencantos, rejeições e enganos, incapaz de entender porque não me queriam, não meentendiam, não me acompanhavam... Agora sei, depois de um mergulho profundo no paraíso da descoberta pessoal, que tudo isso foi um surto agudo de miopia que me acometeu. Era complicado enxergar bem, não utilizando a lente adequada. Hábito comum de quem tem olhos de arco-íris.

Cresci e passei a ver o positivo de cada dissabor e é nesse aprendizado que me graduo constantemente. A escola da vida confere certificado de sabedoria e bom senso, que ocupa merecido destaque nas paredes onde estão expostos os meus outros diplomas de cursos regulares. Ao contrário deles, o curso da vida é irregular e imprevisível. Mas nele adquiro a prática no lidar com os diferentes e com os iguais, com o alegre e com o triste.
O foco é a questão. No nosso convívio, por exemplo, existem os que fogem aos padrões e fazem a diferença. E, também, encontramos os previsíveis e sempre iguais que nada modificam no contexto.

Basta olharmos para os transeuntes em alguma rua de grande movimento. A maioria passa despercebida. Têm a postura ajustada ao comum. Entretanto, existem aqueles raros passantes que modificam o cenário porque chamam a atenção e distinguem-se dos demais, num repente. Podem estar vestidos simplesmente e, até, descuidados de si mesmos. Acontece que despertam, em nós, a projeção do olhar e reparamos o detalhe de cada movimento que fazem.

Trata-se do foco. O nosso foco. É a maneira como vemos a vida, segundo os nossos estabelecidos modelos. Então, quando o foco se desalinha pelo diferente dos que fogem ao padrão e desacomodam o supostamente estabelecido como regra, nos surpreendemos. Afinal, fugir aos padrões é próprio de uma minoria que assusta pelo seu poder de transformar o corriqueiro em excepcional. Mas continua sendo o foco, o ponto de vista.
Assim é, com a alegria e com a tristeza, com o bem e com o mal. Depende do foco sob o qual os olhamos.

Na verdade, tudo está bem na ponta do nariz. É só uma questão de visão.

~ Maria Alice Estrella ~

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