E por falar em rotinaEstamos sempre propondo, a nós mesmos, mudanças de comportamento, de corte de cabelo, de estilo de vestir, de hábitos alimentares, de trajetos nas caminhadas.
Queremos algo novo, diferente. Alguma coisa que balance o cotidiano, desencaixe as peças do quebra-cabeça para podermos montá-lo de outra forma. Talvez, como escada, trampolim ou asa delta. Como se isso fosse possível e fácil.
Seres em constante mutação, somos movidos a transformar cada instante em cerimônia de inauguração com direito à banda de música, faixa de cetim e discurso.
Impelidos pelo desejo de encontrar uma aurora distinta, mergulhamos no desconhecido em busca de algo variável que nos permita uma perspectiva de reforma. Procuramos, incansavelmente, a linha do horizonte e lançamos o olhar para o infinito, que o firmamento escancara a nossa frente. Somos pássaros de asas invisíveis, querendo voar para distantes e distintas paisagens.
Então, arquitetamos sonhos de mudanças. Sonhamos a vida diferente com cenas de filme de Hollywood e muitos efeitos especiais. Sonhos coloridos e musicais com roteiro inédito a fim de transformar a monotonia dos nossos dias sempre iguais.
Daí, a gente acorda e espanta o sonho para uma próxima vez. Hoje segue tudo na mesma: levantar, abrir as janelas, preparar um café, se acordar debaixo do chuveiro, escovar os cabelos e ler o jornal, o relógio, olhando para nós como um juiz pronto a proferir uma sentença, esgota os minutos e apressa nossa saída para o trabalho, enquanto a mente rebelde viaja por outros lugares. Uma insatisfação interior provoca um pensamento, que não é sugestão; é quase uma ordem: - Precisamos mudar! Renovar! E, se pensarmos nos sinônimos desse verbo, nas ações que eles desencadeiam, só para citar: recomeçar, reiniciar, refazer, regenerar, restaurar, reparar, reproduzir, recompor...,
veremos o quanto se adequa, aos nossos anseios, cada um deles.
Talvez, a explicação para tantos recomeços, a que assistimos e de que, muitas vezes, participamos, seja a necessidade que sentimos de transmutar.
E é nas relações afetivas dos tempos atuais, que se percebem, com um maior número de exemplos, as causas e efeitos dessa ânsia humana de buscar o novo.
Quando tudo parece perfeitamente estável, sereno, completo e até, feliz (por que não dizer?) surpreendemo-nos sob o impacto de uma insatisfação nunca dantes imaginada. Uma angústia existencial se abate sobre nossos ombros (ali onde existem as tais asas invisíveis) e desfazemos as relações, quase perfeitas, de afeto para, depois (sabe-se lá como e quando) refazer nossos sentimentos em um amor mais-que-perfeito, que supomos estar esperando por nós logo à frente.
Assim, de recomeço em recomeço, muitos de nós, tentam modificar o marasmo da rotina que apavora.
A sensação que a rotina passa é a de estagnação, como se já tivéssemos chegado ao término da corrida e nada mais pudesse acontecer. É como se soubéssemos o segredo. É como se não houvesse mais segredos. E essa constatação é assustadora.
A busca incessante desse "algo mais" é a própria rotina de tentar chegar ao paraíso, que acomete toda a humanidade, desde o início dos tempos. É a ânsia de infinitude, de nunca acabar, de ser perpétuo. Buscar o novo é rotina, vista de um ângulo diverso, é claro!
~ Maria Alice Estrella ~
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Imagem Cortesia Comteche.com |
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