Ciranda

Aqueles que têm a ousadia de escrever e publicar são vistos pelos olhos dos leitores como se fossem o negativo e, ao mesmo tempo, a revelação de uma foto. São observados de todos os lados, principalmente o de dentro, e sob inúmeros ângulos.
Mas existe um lugar íntimo e secreto que nunca é aberto à visitação. Ficam, os leitores, na ante-sala, visualizando somente corredores e portas. Vez ou outra, uma delas se abre e entram e saem emoções silenciosas, risos ruidosos, tristezas cabisbaixas. Porém, o que se passa no recinto fechado não fica a descoberto. .
Foram chegando lentamente, um por um, com a algazarra dos amigos que se reencontram depois de algum tempo.
Muitos abraços entremeados de risos e novidades.
Tudo regado com música na noite quente e serena à beira da Lagoa.
Ninguém querendo saber mais do que o momento permitia.
Sem essa de perguntar sobre detalhes do cotidiano de cada um. O que valia a pena estava ali, categórico: - o fato de encontrarem-se exatamente como estavam. Nem gordos ou magros, nem velhos ou moços. Apenas, inteiros.

Eram, ainda, os mesmos com idênticas ilusões desfeitas e sonhos similares de, além e apesar, descobrir o caminho da ventura. Eram teimosos e insistentes perseguidores da estrela da manhã. Peregrinos de estradas diversas que se confundiam, naquela noite, como caminhos cruzados.

Todos estavam desacompanhados e sós, mas nunca, solitários.
Adultos emancipados pela lei da vida, com carteirinha de sobreviventes de muitos naufrágios, mas com coragem suficiente para buscar da existência o que ela tem de melhor.
Grupo reunido, planos à vista. Programou-se um churrasco para o dia seguinte.
Dançaram e festejaram como em épocas de outrora, sem que, em momento algum, surgissem saudosismos de reminiscências.

As conversas se estenderam pela madrugada, em meio a despercebidas horas e a noite foi se acabando como um fiozinho de água corrente que se esvai na areia.

Um facho de claridade despontou na escuridão, anunciando o amanhecer.
Então, todos correram para a beira da praia e em completo silêncio, como guardiões de alguma cidadela, postaram-se em reverente admiração para assistir ao nascer do Sol no horizonte perfeito da Lagoa dos Patos, que faz parte do cenário interior e lendário da vida de cada um deles.

Livres, leves e soltos se entregavam à beleza da incandescente bola de fogo, surgindo das águas do Mar de Dentro, como se fosse parte de um ritual nunca esquecido e sempre renovado. Estavam de volta à lembrança da vivência pitoresca da beleza da juventude. Reviviam ali, os instantes que o tempo restaurava. Espetáculo sem palavras. Olhos úmidos de emoção.
O sono venceu a todos. O churrasco não aconteceu. Ficou para a próxima...
E a próxima vez é a melhor, com certeza!
Só fica para trás o que não valeu a pena. O que é bom permanece. Assim como esse grupo de amigos que se alegra com as pequeninas coisas que a memória perpétua e que laços invisíveis mantêm intactas.
O acaso ronda a ciranda de um tempo, que caminhou muito e está cansado de andar, juntando as linhas do imprevisível em abraços e beijos enternecidos por tanto esperar.

~ Maria Alice Estrella ~

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