Sem essa de encarar todas as coisas como se fossem tarefas a cumprir.Leio o livro como uma obrigação a concluir, ouço música como se fosse um ritual a ser executado, olho para a paisagem através da janela como se fosse forçada a só ver o belo e, PRONTO!
Chega de assumir todas as atividades como se fossem pesos e fardos, pacotes e embrulhos, esperando por mim para carregá-las, segurá-las, desembrulhá-las.
Estou fazendo um exercício de reformulação. Li a bula que me acompanha e descobri que ando saindo da prescrição e da finalidade para a qual fui fabricada. Preciso rever padrões de comportamentos e reavaliar posturas. Mas, tudo isso, numa boa, na maior paz. Sem grandes discussões comigo mesma, por maiores que sejam os argumentos do meu super ego.
Surpreendo-me, mergulhada até o pescoço, em atitudes padronizadas e executadas com um traço de cumprimento de dever. Molhar as plantas, por exemplo. Maquinalmente, ego e ajeito folhas e coloco na claridade e fim.
Percebo que carrego para o fim de semana as obrigações dos outros dias. Rituais perpetuados para além dos seus limites.
Começo a fugir dos tais rituais e, agora, já me dou ao luxo de ficar admirando a vida, deixando o tempo passar, sem angústias.
Então, descubro que é muito bom que o desenrolar do meu dia de lazer se dê de forma leve, suave, sem presilhas. Domingo passa a ser o meu dia de muito prazer.
Durante a semana, impossível encarar as atividades sem o toque de compromisso e responsabilidade.Sincronizo tudo com muita presteza e sou a serva do relógio, obediente e eficiente. O prazer é o de saber do dever cumprido.Porém, eu quero, também e principalmente, o prazer de não fazer coisa alguma. Ou melhor, o prazer de fazer o que me dá muito prazer. Escrever, saboreando as palavras delicadamente; caminhar sem pressa, ao léu; ouvir música, dançando de vez em quando; conversar com os amigos; rir mais; cantarolar; rever fotografias, sem medir o tempo que passou e, muito menos, o que está passando.
Muito prazer no pouco de cada coisa que está ao alcance das mãos e do espírito.
Com certeza, tenho sentido os efeitos dessa reciclagem. Estou de bem comigo mesma e, deixando de lado as metódicas tarefas a que me via constrangida nos sete dias da semana, descobri a maravilha dos domingos. E nem importa se o clima está frio ou quente, se tem sol ou se tem chuva.O que vale é o sol que escancarei no horizonte do meu céu de dentro, com direito a estrelas e luas quando a noite chega.
Inicio a semana, sabendo que o domingo me aguarda, logo ali, para um encontro descompromissado. Nada além do que proporcionar, a mim mesma, atividades corriqueiras, simples, aprazíveis.
Nada contra ao tic-tac limitado das horas, mas que é maravilhoso deixar de lado a compressão do relógio e permitir o fluir do tempo sem saber há quantas ando, lá isso é! Está anoitecendo e nem sei que horas são... Isso é bom. Muito bom. Estou leve como uma pluma só porque não sei o que farei daqui em diante, até o dia acabar. E as estrelas da minha constelação começam a brilhar. Bom sinal.
Sempre é tempo de reformular atitudes e reconsiderar hábitos arraigados desde a infância.
Afinal, ser mulher é, também, construir e conquistar impérios em inúmeros territórios. Inclusive e, principalmente, no seu próprio interior. Sempre com prazer. Com MUITO PRAZER!
~ Maria Alice Estrella ~
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