RespingosSem essa de encarar todas as coisas como se fossem tarefas a cumprir.Leio o livro como uma obrigação a concluir, ouço música como se fosse um ritual a ser executado, olho para a paisagem através da janela como se fosse forçada a só ver o belo e, PRONTO!
Palavras, as vezes, ditas aos borbotões como água de enxurrada, despejam-se inoportunas nos escoadouros da sensibilidade e causam danos irreparáveis. Os respingos alheios atingem em cheio a nossa alma, que fica molhada até os ossos. E, pensando bem, isso acontece, faça chuva ou faça sol, no correr do dia. Estamos expostos aos gritos e sussurros dos que nos cercam, dos que cruzam conosco, dos que convivem na mesma trama dos acontecimentos. Palavras despejadas aos quatro ventos, com maiores intenções, provocam verdadeiras enchentes em ouvidos desprevenidos. Sobra respingo de fel para todos os lados.
De uma forma extremamente desagradável somos atingidos por estilhaços, por dardos ferinos, sutilmente pronunciados ao acaso. Que não é acaso, propriamente dito, é previsto e intencional, na verdade.
Aconselho o uso constante de um protetor. Pode ser um guarda-chuva, desses descartáveis, que se compram na esquina, a preço acessível. Não saia sem ele. Precaver-se nunca é demais. Também, é de bom uso, um escudo isolante e impermeável, que impeça os efeitos nocivos. Sugiro a bondade e a pureza de coração.
Vivemos ao sabor do humor oscilante do próximo que descarrega seus temores, inseguranças, perdas, inconformismos, e tudo o mais que o atormenta, sob a forma de palavras inconvenientes, salpicadas daqui e dali.
Ainda bem que existe outra faceta, para compensar as alfinetadas. São os respingos de ternura, de delicadeza, de afabilidade.
Pessoas que transbordam mel em complementos verbais e nominais com concordância bem empregada. São raras e pertencem a uma espécie em extinção: gente de bem com a vida e consigo mesmas, que desbravaram seus intrincados labirintos internos e superaram os limites restritos da animosidade.
As palavras que elas falam têm a melodia suave de uma cantiga de afeto. São respingos de puro orvalho cristalino tocando as pétalas da nossa alma na simplicidade do bem.
Para esses respingos, melhor é deixar aquele guarda-chuva em casa. Desnecessário abri-lo. Ao contrário, deixe de lado o escudo e exponha seus poros ao doce toque de cada um deles. Se, ao menos, por uma só vez, durante todo o seu dia, receber o privilégio de ouvir palavras desse quilate, aprecie e deleite-se com o bálsamo. O efeito é restaurador.
Inclusive, age como antídoto contra os males das palavras mal ditas que proliferam no cotidiano.
Os respingos constantes, que nos atingem, são ocasionados por problemas não solucionados, que precisam de conserto e, em vez de irem para a oficina, ficam a nossa volta, fazendo ruídos inadequados. Coisas mal resolvidas. Use, nesses casos, uma boa dose de compreensão além de, uma súbita ocorrência de surdez.
Ao fim, para compensar, resta o respingar de alguma palavra boa, adubando o terreno do dia para uma jornada que se não é melhor, pelo menos, fica mais suave.
Respingos são inevitáveis, quando estamos na chuva e nos expomos às intempéries. De um jeito ou de outro, ficamos com as marcas dessas palavras, cheias de consoantes e vogais, umas boas, outras nem tanto.
Ecos e ressonâncias que falam pelos cotovelos e ora machucam, ora acariciam. Palavras falantes, respingando, o seu acre-doce tempero, no convívio dos humanos.
~ Maria Alice Estrella ~
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