Esconderijo Chegou bem de mansinho,lento e calmo como a brisa do amanhecer. Sem usar artifícios, foi naturalmente espalhando seus encantos por meio de um olhar terno de menino travesso e ingênuo.
Conquistou a minha alma tal qual um guerreiro, apossando-se de terras, rios, vertentes. E rendi-me aos seus apelos. Capitulei frente a sua sensibilidade, sua figura discreta, seu brilho sedutor.
Juntos, vivemos momentos incomparáveis. Garanto, sem correr o risco de equivocar-me, que nunca fui tão feliz. Mas como felicidade dura pouco e é artigo raro, escapou-me por entre os dedos, mais rápida do que chegou. Aconteceu o desmanche, o rompimento, o ocaso.
Fiquei só. Infelizmente, só. Assim como tantos, que se vêem afastados, apartados, ceifados, cortados: ramo de uma árvore de afeto que deixa de ter sentido.
Respirei fundo, muito fundo. Endureci o olhar cansado de chorar e continuei, teimosamente, a acompanhar a vida inexorável, do lado de fora.
Passaram-se alguns anos e o senhor dos acontecimentos, o tempo, nada fez para modificar o quadro. Acompanhou impassível a todas as minhas tentativas de esquecimento.
Intentei fugir. Fiz de tudo para escapar. Usei disfarces, camuflagens. Escondi o que pude dentro do peito. Fechei o armário com cadeado e negociei, com o acaso, o segredo.
Pensei ser mais fácil ignorar os sinais e ludibriei a mim mesma. Experimentei inúmeras máscaras e em cada uma, reconheci a presença do sempre constante.
Nem preciso dizer que é inútil negar o que latente está, querendo declarar-se em gestos, olhares, palavras e silêncios. Transborda pelos poros e extrapola os limites do suportável numa desenfreada e inoportuna sede de aparecer, de tornar-se reconhecível e presente.
E Gonzaguinha, magistralmente, escreveu..."Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder o que não dá mais para ocultar..." Sabia de tudo, esse grande compositor. Conhecia o sinuoso caminho que o coração traça em meio aos campos da emoção. Assim como o meu querido Mario Quintana, que compôs o poema: "...Que importa se, depois de tudo, tenha ele casado, mudado, esquecido, enganado, ou qualquer outra coisa que te haja feito, em suma...Tiveste uma parte de sua vida, que foi só tua e essa, ele jamais poderá levar de ti para ninguém...Há bens inalienáveis. Há certos momentos, que ao contrário do que pensas, fazem parte da tua vida presente e não, do teu passado..."
Daí, a gente sai para a rua, com bandeira desfraldada e grita o afeto, preso na garganta, trancafiado, por longo período, na masmorra escura da covardia. Sem medo, sem cautela, pronta para o que der e vier.
Que importa se não me respondem, surdos aos meus apelos? Que importa se não me retribuem, indiferentes aos meus sentimentos?
Respostas, nunca tive, que justificassem esse desterro. O exílio a que fui sentenciada não imunizou meu sentimento. Continua comigo, fazendo vias de companhia, nessa imensa ilha deserta em que transformou-se a minha alma.
E o melhor de tudo é que não há ressentimentos. As coisas que não se entendem, o incompreensível dos atos, neutralizam possíveis especulações.
De resto, tornei-me uma escritora do cotidiano, manuseando emoções, saindo do esconderijo da tal ilha. Sempre existe um jeito de compensar a tristeza de um isolamento. Escolhi o mais simples.
E, de repente, essa história é a tua história também, e te reconheces em cada linha, porque há sempre um conto de amor em exílio, num recanto do coração, que fica em silêncio guardado na gaveta do passado. Passado que, como bem escreveu o Quintana, é o mais que perfeito presente.
Esconderijo descoberto, todas as vezes em que se abrimos os olhos para o lado de dentro do peito Esconderijo tão escondido que já nem se sabe se, o que guardamos, são apenas trechos de uma estória confeccionada pela imaginação.Talvez. Quem sabe?
ß
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Yasmin ~Sonhos e Carinhos
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