Amor-Perfeito
Domingo com muitas nuvens e uns rasgos de sol. Bom é sair para uma caminhada a fim de repor energias e exorcizar os fantasmas da semana que passou.

Olho a minha volta com olhos de prazer, sorvendo a manhã como quem degusta um manjar. Festejo a constatação de estar viva e em pleno gozo das faculdades mentais, físicas e espirituais. Meus passos sincronizam-se com a respiração e observo cada detalhe, em sua própria realidade e essência.

Paro para tomar fôlego e saboreio um chimarrão em meio ao burburinho dos passantes que desfilam na alameda da avenida.

De repente, um vaso com amor-perfeito, surpreende minha descompromissada manhã.

Ali, frente a frente, deparo-me com a beleza das cores matizadas em tons de amarelo, marrom, branco, laranja ... Coisas que só a natureza consegue criar numa peculiaridade de mestra. Fico com as retinas iluminadas e volto para casa com vontade de escrever sobre essa plantinha efêmera e primaverial que enche o meu dia com a simplicidade da beleza. A palavra primeira que me vem ao pensamento é: esperança. Esperança de que, quando setembro chega, se consiga ouvir um canto mais forte de pássaros.

Agosto passou como um vendaval de desacertos, de tormentas, preocupações, tirando muito da fé e da confiança de que o sol pudesse chegar.

Setembro aparece no calendário como um arauto de boas notícias e a natureza se enfeita como noiva prometida ao bem amado. O vento sopra quente com mensagens e sementes, espalhando vida por todos os lados.

O desânimo vai cedendo espaço para que a confiança se instale de "de mala e cuia".

Nos rostos, as linhas endurecidas pelo rigor do inverno e pela tristeza do outono, suavizam-se e transformam-se com o toque da primavera. Há mais brilho nos olhos porque o prenúncio é de bom tempo.

Hoje, a primavera acenou para mim e enviou-me um cartão postal: as flores de um amor-perfeito !

Amor-perfeito ! Existe, sim ! Em raros vasos-corações que fazem desabrochar a semente do sentimento.

Conservo bem fundo na alma um vaso de amor-perfeito. O querer bem lançou a semente e o tempo cultivou com o adubo da perseverança e com algumas lágrimas que umedecem as coloridas flores. Ele é meu. A única coisa verdadeiramente minha. Pertence a mim em qualquer estação do ano. É o meu amor-perfeito de emoção. É fruto do que sinto.

E, agora, a primavera traz a fotografia do meu peito, revelada e estampada num vaso de amor-perfeito à mostra num canteiro.

Bem-vinda seja a primavera ! Bem-vinda seja, a borboleta que atravessará o vitral da manhã para beber a gota de orvalho nas folhas desse amor-perfeito.

A metamorfose torna-se contagiante e invade os poros da vida em todas as suas formas. Por isso, os vaga-lumes, as estrelas, os pássaros, as borboletas.

~ Maria Alice Estrella ~

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