Detesto sentir-me deslocada em certos lugares. Tipo aqueles em que a gente fica sem jeito, como se não tivesse sido convidada ou não fosse bem-vinda. Situações em que o desconforto não é visível. Apenas, um olhar de desaprovação, um silêncio de indiferença fazem o cenário parecer destoante e sem clima. Mas pior não é essa incoveniência sentida em ambientes de convívio. O mais desagradável é querer ingressar num lugar que já está com a lotação esgotada. Impossível se acomodar. Impraticável se instalar.

O mesmo acontece com com os corações saturados, ocupados com inquilino que não permite a entrada de qualquer outro pretendente, ao menos, nem que seja, para dar uma olhada rápida no recinto. Esses corações trazem um cartaz enorme pendurado na porta da frente com os dizeres: - Não há vagas ! Seus compartimentos não estão disponíveis para ocupação imediata. E, talvez, assim permaneçam por tempo indeterminado.

E um sem número de avisos como esse, andam circulando pelas redondezas. É só lançar um olhar, com atenção, para as vezes em que nos sentimos rejeitados, afastados, exilados. Os vários momentos em que, ao ímpeto da nossa espontaneidade de chegada e entrega, sofremos o solavanco do freio acionado, buscamente, pelos que ostentam no peito a tal placa de "acesso não permitido".

E os que se apaixonam passam a ser prováveis invasores, ameaças em potencial para a segurança de um território, onde não há o livre trânsito e nem a permissão para ultrapassar fronteiras. Ficam na antesala de espera a esperança de que a porta se abra e chamem pelo nome ...

Isso é explicável. De um lado, os que têm o coração despojado de ligações com afeos que prescreveram no tempo e, de outro, os que têm o coração cumulado de afetos que ficam no ativo permanente. E tal afeto, muitas vezes, é o amor desmedido nutrido por si mesmo, num egocentrismo exagerado. Noutras, é o amor imenso dedicado a alguém, num secreto altruísmo. Em ambos os casos, é vã a tentativa de adentrar pelos campos do coração alheio.

E independe de vontade, de resolução, de intenção. Desocupar um coração é questão sem solução. Nem doutores, nem sábios conseguem descobrir a fórmula para a desapropriação de um afeto. Dizem que o tempo é a única esperança. Duvido ! O tempo pode muito pouco contra as raízes de um amor que se fixa no terreno fértil do coração (mesmo que seja um amor-próprio exacerbado). E quanto mais velho, mais forte e inatacável.

Por essas e por outras, entendo bem, quando me deparo com as cidadelas e fortificações ao redor de corações já habitados. Sei que ali só entra quem for convidado e tiver licença para visitação. Mas visitas não são as metas de quem se envolve. Permanência é a palavra que rima com coerência. O que queremos, no fundo, é nos instalarmos com armas e bagagens dentro do peito de quem amamos. E nem sempre é possível.

Há alguns anos escrevi um poema que traduz bem o que penso e o que sinto, inclusive em relação a mim mesma, que carrego no fundo e bem dentro,um morador com direito adquirido por usucapião.Fica o poema, e fico eu mesma, nas entrelinhas:
"Não se alugam emoções,
nem o coração está à disposição
de cláusulas contratuais.
Se o teu amor é de aluguel
coloca uma tabuleta de aviso,
antes que adentre pela tua alma,
alguma outra alma,
querendo possuir teu âmago ... para sempre !"

~ Maria Alice Estrella ~

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