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Dá-se um cãozinho de estimação. Motivo: dificuldade de lidar com a perda definitiva. A estimação é tanta, que é preferível a separação em vida. Acompanha um casinha feita sob encomenda especial e um pedaço de pano insubstituível. Ele atende, quando quer, pelo nome de Travesso e só é aconselhável, o uso de coleira, em casos extremos.


Empresta-se um relógio movido a corda que só funciona quando quer e só assinala as horas que lhe agradam. Devido ao silêncio e à apatia que lhe acometeram, estou colocando-o à disposição de alheias paredes por um curto período de tempo. (Talvez, ele sinta falta do meu convívio e volte a marcar os minutos com saudade de casa e, então poderá ser devolvido a mim).

Troca-se uma cadeira de balanço com memórias e almofadas de cetim em excelente estado de conservação (das lembranças e das almofadas, também); por uma recém plantada muda de violeta de cor azul, como a do céu de verão antes do anoitecer. Motivo: a cadeira já conhece os meus segredos e não traz mais novidades e as violetas irão surpeender-me todas as manhãs.

Torra-se uma coleção de álbuns de figurinhas de muitos anos atrás por uma foto de Antonio Banderas sorrindo. Os álbuns estão perfeitos, completos e intactos. Cansei de folheá-los com luvas de proteção para não estragar suas páginas e quero muito iluminar meu quarto com a figura do ator, não tão perfeito, não tão completo e nem tão intacto, dispensando o uso de luvas, com certeza!

Perdeu-se na calçada da Rua do Amanhecer, um mapa com detalhes de uma viagem pela Terra do Nunca. Mais informações podem ser obtidas co o poeta anônimo, aprendiz de emoções. Gratifica-se com sorrisos, muitos abraços e um poema de improviso.

Ofereço-me para trabalhos de arrumadeira de perdas, enfermeira de desapontamentos, cozinheira de ilusões, costureira de sonhos, advogada de esperanças, médica de rompimentos, conselheira de escolhas, em tempo integral. Durmo no emprego e tenho referências com carta de apresentaçãoa ssinadas por anteriores patrões: senhor Dissabor, senhora Vida, senhor Sofrimento, senhora Ilusão, senhor Tempo e muitos mais.

Aluga-se um quarto mobiliado com vista para o céus, espaçoso e claro. Armários suspensos por fios invisíveis com portas silenciosas e inúmeras prateleiras para acomodar quinquilharias. Detalhe: o luar não respeita cortinas e invade as quatro paredes transparentes em noites quentes, as etrelas, que estão pintadas no teto, são irremovíveis, o opiso é forrado de nuvens e a chave é feita do orvalho de todas as manhãs. Aluguel acessível e sem custas de confomínio. Contrato de uso dispensa fiador. Caução compatível com as posses do inquilino: um dote de paz.

Vende-se um computador com crises periódicas de amnésia, de impertinência, de lentidão. Funciona sob protesto e com gemidos obedece, algumas vezes. Aceita-se tartarugas na efetivação do negócio. Tratar no felefone (também, com problemas de funcionamento) 111-1111, no horário de descanso (do telefone, é claro !).

Procura-se uma rua de esmeralda, um coelho apressado, um sapatinho de cristal, um grilo falante, uma rainha de Copas, um elefante voador, um espelho mágico, uma menina chamada Alice, um País das Maravilhas. Coisas, lugares e personagens perdidos no tempo do faz-de-conta e que nunca mais foram encontrados. Caso saiba algum indício de seus paradeiros, remeta uma carta para a caixa postal, sob o nome de
Perdidos e Achados.

~ Maria Alice Estrella ~

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