Emoções
Com as manchetes dos jornais e as notícias na televisão, vive-se em um constante oscilar de adrenalina. É uma virtual viagem de avião, caindo em vácuos e sacudindo nossos nervos como quem prepara coquetéis explosivos. A sensação de sobe e desce é um exercício sucessivo e extenuante em nossa atualidade de tragédias.

Apesar desses sustos e quedas livres, continuo a me emocionar com a simplicidade de uma lua estampada no céu em noite de estrelas e com o sorriso de uma criança descobrindo a vida ... Um pôr-de-sol desenhado no horizonte e um poema falando de ternuras ... Emoções incomparáveis e inigualáveis, como a que o tempo me trouxe de presente no presente em que vivo ...

Transcrevo, nas linhas que seguem, o esboço de uma realidade que traduz a emoção maior... A emoção do encontro com a metade que faltava para completar o ciclo e que faz toda a diferença, entre tantas comoções ...

" O caminho que te conduziu até os meus braços é fruto da semeadura do tempo ... Foste nascendo, lento e calmo, no meu olhar circulando pelo espaço ...
A passagem das chuvas e o calor do sol adubaram o solo fértil do teu e do meu sentimento, nas cantigas que o vento soprou aos ouvidos da espera ...
Chegas na certeza da colheita, com o meu corpo celeiro e a minha alma provisão, acolhendo o teu abraço. Abraço que viaja nas horas da ausência, desde longe e de dentro, ansiando por acontecer. E esse abraço comporta o manancial das águas da emoção, que rompem os limites do inexplicável e escorrem pelas veias de rios de carinho ..."


São emoções como essa, aqui descrita com a poesia da autora, que justificam o ato de estar viva e inserida num contexto em que a coragem de sentir é a tônica, é o próprio tônus da alma.

Fala-se muito, nas rodas de conversa entre os amigos e conhecidos, sobre assuntos políticos, sociais, religiosos, domésticos, afetivos, nas quando se trata de abordar emoções, escorrega-se pela tangente e guardam-se os comentários para o sigiloso reduto do " só interessa a mim ".

Pois de emoções genuínas é confeccionada a rede da vida e de emoções se nutre a sucessão dos dias por mais que as queiramos encobrir e disfarçar.

Acredito na emoção como combustível, como balão de oxigênio, como primeiros socorros, como bênção, como milagre. E falando em milagre, inúmeros têm acontecido em nome da emoção.

Faço um rescaldo nos meus momentos e salvo o que valeu, o que sobreviveu, o que ficou e chego a um denominador único: tudo aquilo vivido com emoção não foi destruído.

E se procuro definir a emoção, encontro uma simples arquitetura de palavras, consstruindo o óbvio. Emoção é o toque que, a orquestra dos sentidos, provoca na superfície da pele da alma. Emoção é a carícia das sensações na epiderme do espírito.

Por certo, foi traduzindo emoção que Julio Dantas escreveu na Ceia dos Cardeiais: ... "Como em capela de ouro há cem anos fechada, onde não vai ninguém, mas onde há festa ainda ..."

De emoção em emoção, construo a minha história e a escrevo com a tinta colorida de um arco-íris constante, faça sol ou seja noite.

Afinal, emociono-me comigo, contigo, conosco num abrir e fechar de olhos, entre um passo e outro, num suspiro e num sorriso, numa lágrima e num silêncio ... Olhos, ouvidos e coração sempre atentos para absorver do momento, a emoção que ele comporta, reparte e multiplica !

~ Maria Alice Estrella ~

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