Se eu pudesse, viveria nas asas de um avião, tamanha a minha predileção por viajar. Adoro mudar de ares, conhecer lugares, descobrir espaços novos.

Tenho uma atração enorme por estações de trem, rodoviárias, aeroportos ... Sei que a maioria das pessoas detesta esses locais porque os associam a despedidas e nunca, a reencontros.

Foi pensando nisso que imaginei a minha vida como uma grande e (espero) longa viagem. E escolhi o trem como meio de transporte ... Num avião a paisagem é feita de nuvens e chega-se muito rápido ao destino ... Prefiro ver campos, rios, curvas numa velocidade compatível com a do meu olhar.

A minha viagem iniciou quando nasci. Embarquei na estação com meus pais. Os outros passageiros eram desconhecidos. Aos poucos, esses passageiros desconhecidos foram tomando parte nas conversas ao meu redor e integraram-se como irmãos, primos, amigos. Já não estava viajando em pouca companhia.

Lentamente, formava-se uma família. E era divertido. Brincávamos muito e ainda ouço o som dos risos da infância.

Algumas pessoas desciam nas paradas do trem e eu acenava, enquanto pegavam suas bagagens. Tudo tão natural e simples ! Outras, subiam e se acomodavam em seus lugares com muita seriedade. E a viagem seguia seu rumo.



Minha poltrona não ficava junto à janela. Eu precisava me esticar para observar o retrato que a natureza projetava no pequeno quadrado de vidro. Sempre por sobre o ombro de alguém ...

Cresci e adquiri o direito de escolher o lugar que preferia. Escolhi a janela porque, assim poderia relatar cada trecho da vida desnrolando-se no paralelo dos trilhos.

No trem da minha viagem, muitos dos meus companheiros queridos e mais próximos, embarcaram depois de mim e, tantos outros desceram antes, em estações em que o trem não deveria ter parado. Impossível detê-los. No bilhete de passagem que adquiriram, o trajeto já estava determinado.

Dali em diante não podiam seguir. Meus acenos de despedida dilaceraram a vidraça, as mãos ... e arranharam o peito com estilhaços de dor.

O trem seguiu seu itinerários e eu continuei no meu.

Paisagem várias e múltiplas justificaram a razão da minha permanência no comboio. E eu, ainda, tinha companheiros de jornada que não prescindiam da minha companhia. Necessária, pois, a continuidade.

Tornei-me amiga de muita gente e participei de todas as atividades a bordo nas tarefas que me foram confiadas. Entretanto, não pude me esquivar de desencantos e equívocos. Nem sempre a viagem era agradável por mais que assim eu desejasse.



Na maior parte do tempo, senti-me solitária, como se me faltasse um pedaço, um complemento. Como se faltasse um sentido para a travessia. Foi num desses instantes de muita solidão que fitei o horizonte e percebi ao longe as luzes de mais uma estação ...

Do imaginário, passo ao real. Escrevo, a partir daqui, o que a paisagem da vida acrescentou ao cenário. Uso a mesma imagem na adequação ao concreto. Colinas, rios, florestas e planícies, tempestades e calmarias conspiraram nas estradas para proporcionar o acontecimento ...

O trem pára. Um passageiro silenciosamente embarca. Seu lugar está marcado é ao meu lado. Nossos olhares se cruzam e uma corrente de luz ilumina o vagão. Sorrimos. Sabemos que estamos no mesmo percurso e que nosso destino é seguirmos juntos.

Nossas mãos estão entrelaçadas e falamos idêntica linguagem. Corações batendo num só ritmo, dançaremos, hoje à noite, no vagão-restaurante.

Se você é um passageiro nesse trem, está convidado, desde já, para a grande festa. Afinal, é um momento memóravel. A comemoração de dois viajantes que descobrem o significado da viagem, o sentido do percurso e a felicidade do encontro !

~ Maria Alice Estrella ~

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