 Nunca te vi, sempre te amei
Sou "fã de carteirinha" da sétima arte. Sou alvo dos seus encantos, desde menininha, quando freqüentava os inúmeros cinemas que existiam em Porto Alegre.
Os rolos de celulose, contando histórias através de personagens memoráveis, exercem um fascínio sobre a minha pessoa ...Assistir a um filme, para mim, exige um ritual. O ritual de desligar-me de imagens e sons do cotidiano para mergulhar nas imagens e sons impressos na tela.
É um cerimonial onde descubro a arte da vida retratada em movimento e reencontro pedaços da minha própria vida pincelados entre uma cena e outra.Processo de identificação que justifica a arte por si mesma.
É claro que estarei na platéia para ver o novo episódio de Stars Wars e, ainda, nesta semana, assistirei à Infidelidade. Tudo isso faz parte da minha predileção por filmes.
A paixão é tanta que, muitas vezes, filmes a que já assisti procuro rever ... Alguma coisa muito forte deixou marcas e quero sinti-las novamente.
Pois foi uma dessas razões que me fez buscar o filme Nunca te vi, sempre te amei, com desempenho de Anthony Hopkins e Anne Bancroft. Nas locadoras de
vídeo em que procurei, sai frustrada porque a fita não existia em seus acervos ...
Já estava conformada em revirar minhas memórias para buscar o que queria relembrar, quando abri o jornal e me deparei com a programação de uma emissora de televisão,
incluindo o filme ... Coincidência ou não, encontrei o que buscava. Assisti com um prazer incrível ... Saboreei cada detalhe, cada gesto, cada palavra, cada emoção com uma apreciação renovada.
Em síntese, o roteiro trata da correspondência mantida entre uma escritora de Nova Iorque e o gerente de uma livraria de Londres, onde se comercializavam livros raros.
Simples. Muito simples, já que a história se passa em 1949 e se estende por mais de 20 anos. O meio usado era o correio e os carteiros faziam o trabalho de entrega e recebimento. Coisas em desuso atualmente: selos, envelopes, folhas manuscritas, surpresas palpáveis. O tempo de desenrolava, lentamente, entre uma carta e outra, trazendo um saber de
expectativa mastigada em suspiros de espera e de ansiedade. Lindo !!!
Em um determinado momento, na película, o entrosamente entre os dois é tão declaradamente profundo que eles começam a conversar, olhando para a câmera como se estivessem frente a frente.
Na verdade, milhas de terra e mar estavam separando-os fisicamente, mas parecia que desconheciam esse detalhe. Aliás, mero detalhe porque quando encontros verdadeiros aontecem, a distância é condicionamento geográfico de menos importância.
Emocionei-me com a delicadeza da cena, vivida com perfeição por dois grandes atores, que passaram, com a sutileza do preciosismo, a imagem interior de cada personagem, respirando o outro.
Falar sobre isso, hoje, torna-se quase fora de hora. Quase porque a modernidade trouxe-nos a realidade virtual que permite o correio instantâneo, sem espera de carteiro, sem abertura ansiosa de envelopes... Agora, é só ligar o computador na Internet e abrir com um toque de indicador, a caixa de correspondência eletrônica. Pronto ! A carta impressa na telinha, pode ser lida e respondida em
minutos.
O melhor de tudo é que esse avanço tecnológico, sinal dos tempos, adapta-se, também à realidade da vida e não a desfigura; transforma-a.
O amor continua acontecendo, valendo-se da evolução dos meios e servindo-se deles para unir personagens através das distâncias.
Inúmeras pessoas têm descoberto sua alma gêmea na intincada rede de comunicação e fazem alusão, sem saberem, ao título Nunca te vi, sempre te amei...
Algumas delas, ultrapassam a distância e, frente a frente, realizam sua história. Destino que, uma força maior, um plano melhor, determinou, alheio aos limites da máquina e atento ao processo da vida.
Vida que se repete, como num filme, com os personagens que aceitam o roteiro, quando a palavra de ordem é: amor. E amor, meus caros, é o mesmo sempre, em qualquer tempo ou espaço.
Se você foi premiado com essa descoberta, prepare a mala, a mochila, a esperança e parta em busca do seu presente. Os encontros, nesse nível de profundidade, são raros. Não espere 20 anos, como na
história do filme.
Afinal, os tempos são outros ! Atualize-se ! Ligue-se na rede da vida !
~ Maria Alice Estrella ~
Visite o site da autora Marialicestrella
»Recomenda«
Yasmin ~ Sonhos e Carinhos
Imagem Rapadura com Cinema
|