 Personagem
Sua chegada foi repentina, apesar de sempre esperada. Irrompeu palco adentro com todo o texto pronto na ponta da língua. Falou no idioma próprio de quem sabe o que diz. Mostrou a face sem maquiagem e encarou-me no fundo dos olhos.
Lentamente, foi elaborando cada movimento na minha direção, com a sincronia de um prelúdio de Chopin.
Trazia o coração nas mãos e sorria, sorria muito do espanto que causava, na alegria de ser simples. Quem carrega assim a emoção, deseja que a embalem com o papel celofane da ternura, na transparência de sentir. Presente raro !
Impossível resistir-lhe aos encantos. Como numa dança, deixei-me enlaçar pelos braços da sua sensibilidade e deitei meus medos no seu ombro para um
mergulho de carícias.
Quero que meus medos adormeçam, acariciados pela firmeza da mão que os acolhe ... Medo de errar, de ficar triste, de sentir falta, de amar até a raiz da alma, de não ser amada ... Uma coleção de medos inoportunos que atrapalham a chance de ser feliz.
Nesse turbilhão de desencontros, a chegada de um personagem com perfil de luz e talento de primeira grandeza, convidando-nos para contracenar, causa um impacto de
bom tamanho.
E ao som melodioso das palavras, que atravessam o espaço do palco da vida, inicia-se o ritual da dança ... O acaso, casual e determinado, vai acomodando compassos ao ritmo do inevitável, sem consultar o par. Que se danem os ruídos externos ! Há mais música nos corações que se encontram.
Sintonia fina ... É isso ! É a percepção nítida do trajeto das sensações por debaixo da pele. É um ir e vir no balanço do tempo que junta os personagens no aconchego
da alma e da carne, do barro e do etéreo. É o encaixar de frases, que se complementam, cumprindo um script previamente concebido por artimanhas dos deuses. Deuses que se unem mortais, dando-lhes a impressão de um reencontro ...
O personagem surgiu e, ..."iluminou o meu olhar, seus olhos nus, raios de luz, no azul do amar ... Meu coração que sempre quis acreditar, bateu feliz ... Foi só você chegar ...
Sei que a paixão apaga ochão rareia o ar ... Ser e não ser, negar, querer, fugir, ficar ... Mas não fui eu quem quis assim ... Aconteceu você pra mim e eu não vou negar o que o acaso quis pra nós ... A chama desse amor me fez sorrir, cantar ... Te quero mais ... Te chamo só pra repetir: te amo !" (Cristóvão Bastos e Abel Silva)
Então me vejo cantarolando músicas de amor e rindo sozinha ...,enamorada pelo namorado que um anjo colocou no meu caminho. Componho um poema e o guardo em segredo. Quando
chegar o momento da minha fala, vou transbordar de ternura e proclamar em cena, o que o personagem despertou em mim.
Por ora, embriago-me com o néctar de suas palavras e aplaudo seu desempenho: bravo! Bravo !
Então, ele me fita do fundo do espaço que nos separa, me vê no meio da imensa platéia e me reconhece... Resquícios de asas que já voejaram juntas e se redescobrem...
Personagens de um mesmo teor e de idêntica narrativa, que desafiam o imprevisível e confiam no sucesso de suas interpretações.
~ Maria Alice Estrella ~
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